"Vista da fazenda agroflorestal The Green Rebel, na Terra Alta, Espanha"

Uns dias na Espanha: de furgão por Valência, Tarragona e o oásis agroflorestal que nasceu no meio do nada

Foi em agosto que embarcamos nessa jornada: trocamos o carro da família por um furgão e partimos de Portugal rumo à Espanha, sem muito planejamento e com o veículo lotado de tralhas. O que não sabíamos — e descobrimos logo na estrada — é que agosto talvez não seja o melhor mês para atravessar o país de furgão. O calor foi implacável do início ao fim.

Valência: bonita, mas não pelo mar

Nossa primeira parada foi Valência, cidade grande com belíssimos jardins, mas o primeiro contato com o Mediterrâneo por ali decepcionou: mar parado, sem vida, sem ondas, quase um fundo de baía, e ainda com registros de furtos na praia. Ficou o aprendizado — vale voltar a Valência em outra ocasião, mas explorando outros ângulos da cidade, não a praia. Seguimos viagem.

Castellón de la Plana: o verão que lota a Espanha inteira

Em Castellón de la Plana, a dificuldade de encontrar hospedagem — Airbnbs e até hotéis lotados — nos obrigou a repensar a logística: alugamos um self storage, esvaziamos o furgão por completo e compramos um colchão inflável. Na praia, restavam apenas campings, e mesmo esses só com muita sorte.

Tarragona: praias cristalinas e uma lição sobre viajar aos 65+

Em Tarragona, finalmente encontramos o mar dos sonhos: água cristalina, temperatura agradável, embora o calor continuasse castigando a região, com alertas constantes de onda de calor. Passamos alguns dias saltando de praia em praia, de camping em camping e de hotel em hotel até que, subindo mais em direção ao norte, os campings à beira-mar começaram a rarear.

Foi aí que tive mais uma ideia “brilhante”: buscar um camping do lado das montanhas. Antes de contar como foi, fica o registro-alerta para quem pensa em repetir a experiência: quem tem mais de 65 anos nunca deve comprar um furgão sem ar-condicionado para rodar no verão — e muito menos iniciar uma viagem Portugal–Espanha em agosto, porque vai encontrar o país inteiro na praia.

The Green Rebel: o oásis agroflorestal escondido na Terra Alta

E foi exatamente essa “ideia brilhante” que valeu a pena. No meio do caminho, encontramos o The Green Rebel, um pequeno camping e fazenda agroflorestal em El Pinell de Brai, na comarca da Terra Alta, cerca de duas horas ao sul de Barcelona.

À frente do projeto estão Carlo e Caroline, um casal jovem com dois filhos pequenos, Paolo e Artur, que há cerca de cinco anos vem aplicando ali a técnica de agrofloresta — um sistema de agricultura regenerativa que combina árvores, arbustos, ervas e cultivos de forma integrada, imitando os padrões de uma floresta natural. O resultado, hoje visível a olho nu, é impressionante: o que era uma área árida e hostil está se transformando em um verdadeiro oásis verde e arborizado, em meio a uma região marcada por montanhas e vales secos.

Não é um lugar glamoroso — e não pretende ser. É rústico, autêntico, e vive exatamente disso: da conexão direta com a terra. Hoje, o projeto já atrai a atenção de escolas locais, que levam alunos para conhecer o trabalho de perto, e vende seus próprios produtos orgânicos, incluindo vinho, azeite, amêndoas e verduras cultivados na propriedade — além de, aos poucos, começar a atrair também turistas e viajantes de furgão em busca de experiências mais conscientes.

O que é agrofloresta, afinal

Para quem quiser entender melhor a técnica por trás do trabalho de Carlo, vale conhecer a obra do suíço Ernst Götsch, radicado no Brasil e considerado uma referência mundial em agricultura sintrópica — o método que dá base científica a projetos como o The Green Rebel. Ele documenta décadas de resultados em suas próprias terras e nas de seus alunos, provando que é possível recuperar solos degradados e transformá-los em sistemas produtivos e férteis. Vale assistir ao documentário Life in Syntropy, disponível no YouTube, e acompanhar o trabalho pelo perfil @agendagotsch

Como conhecer o The Green Rebel

Para quem estiver de passagem pela região da Tarragona e tiver curiosidade — ou simplesmente quiser fugir da lotação das praias em agosto —, vale a visita:

O que fica da viagem

Entre o calor sufocante, a dificuldade de achar hospedagem e algumas “ideias brilhantes” nem sempre bem planejadas, essa passagem pela Espanha reforçou uma coisa: são justamente os desvios de rota — como aquele camping no meio do nada — que costumam guardar as descobertas mais valiosas de uma viagem.


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