A 67.ª edição da Lisboa Fashion Week ocupou museus, palácios e até a Rua Augusta para propor uma ideia simples e urgente: num mundo de excesso, escolher melhor.
Fomos ao evento, assistimos aos desfiles e fizemos ao público uma pergunta que mudou a nossa leitura da semana.
“ModaLisboa Priority. O que é prioridade pra você?”
Foi com essa pergunta que começamos a cobertura do Lisboa Fashion Week deste ano. Microfone na mão, entre uma entrada e outra de desfile, abordamos quem passava: convidados, profissionais da moda, gente da cidade. Esperávamos ouvir falar de tendências, de cores da próxima estação, talvez de algum designer favorito. Não foi o que aconteceu.
A resposta que mais ouvimos foi outra: saúde. Logo depois, família. Numa semana inteira dedicada à moda, quase ninguém respondeu roupa.
À primeira vista, pode parecer uma contradição. Mas, quanto mais pensávamos no que o ModaLisboa propôs nesta edição, mais se percebia que aquelas respostas não estavam fora do tema. Estavam no centro dele.
Uma edição sobre escolher melhor
MODALISBOA PRIORITY, apresentada pela OMODA & JAECOO, aconteceu entre 7 e 11 de outubro de 2026, em coorganização com a Câmara Municipal de Lisboa e com o apoio do programa Portugal Events, do Turismo de Portugal. O nome da edição já diz muito: prioridade.
Nos textos de boas-vindas, tanto a Câmara quanto a Associação ModaLisboa partem da mesma constatação: vivemos rodeados de possibilidades e escolher nunca foi tão difícil. Num mundo em que tudo parece disponível, a escolha passa a dizer aquilo a que damos valor. E a moda conhece bem essa responsabilidade, porque escolher uma peça, um tecido ou uma combinação é sempre mais do que uma decisão estética. É uma afirmação de identidade.
O texto da Câmara vai além e propõe uma redefinição de luxo que nos tocou especialmente. O luxo, diz o texto, não se resume ao preço nem à exclusividade de um objeto. Nasce daquilo que é raro: o tempo dedicado a uma ideia, o conhecimento acumulado, a atenção ao detalhe, a capacidade de criar algo que não pode ser simplesmente repetido. Num tempo em que somos convidados a escolher cada vez mais depressa, a edição pede o contrário: escolher melhor.
Num mundo de excesso, o verdadeiro luxo talvez esteja naquilo que não pode ser produzido em série.
Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa, deu ao tema um tom mais concreto e, por que não dizer, corajoso. Para ela, é fácil declarar prioridades; difícil é mantê-las quando deixam de estar na moda, quando exigem investimento ou quando os resultados demoram a chegar. E deixou clara a lista: designers independentes com carreiras possíveis, e não apenas visibilidade; uma nova geração com acesso a recursos, indústria e mercado; sustentabilidade com consequência; inovação com propósito; cultura como parte do valor que se produz. A frase que guardamos do texto dela resume tudo: é preciso continuar a fazer o que é necessário, “sem confundir mudança com progresso”.
35 anos de moda de autor em Lisboa
Não dá para falar desta edição sem lembrar a trajetória. A primeira ModaLisboa aconteceu em abril de 1991, no Teatro São Luiz. De lá para cá, foram 67 edições, sempre ao lado da Câmara Municipal e o evento passou por endereços como o Mercado da Ribeira, o Pavilhão Carlos Lopes, a Cordoaria Nacional e o Museu da Cidade, além de temporadas em Cascais e no Estoril.
Ao longo dessas três décadas e meia, o Lisboa Fashion Week se consolidou como a principal vitrine da moda de autor portuguesa: um espaço onde novos nomes surgem, onde a criação encontra a indústria e onde a moda conversa com a cultura e com a cidade. Como disse a Câmara no seu texto, o patrimônio de uma cidade não é só o que ela recebeu, mas também o que cada geração decide acrescentar.
A cidade inteira como passarela
Uma das marcas desta edição foi justamente sair de um único endereço. O Pátio da Galé, no Terreiro do Paço, continuou como coração do evento, mas a programação se espalhou pelo MUDE (Museu do Design), pelo Museu do Tesouro Real, no Palácio Nacional da Ajuda, pela Havas Village, pela Sociedade Nacional de Belas Artes, pelo MAAT e pelo Moldo Studios. A proposta era colocar as coleções em diálogo com o patrimônio, os museus e o espaço público.
E houve espaço para quem não tinha convite: os desfiles foram transmitidos ao vivo nas plataformas digitais do ModaLisboa e no site da RTP, além de uma instalação na Praça do Comércio, e várias atividades paralelas foram abertas ao público mediante inscrição.
Dia a dia: como foi a semana
Quarta-feira, 7 de outubro: o pensamento antes da passarela
A semana abriu com a primeira Conferência Internacional ModaPortugal, promovida pelo CENIT, no MAAT Central. Com entrada livre, o encontro reuniu vozes de diferentes países para discutir autoria, políticas europeias, desafios tecnológicos e o compromisso com as próximas gerações. Um começo coerente para uma edição que quis pensar antes de mostrar.
Quinta-feira, 8 de outubro: tradição e experimentação no MUDE
O calendário oficial de desfiles começou no Museu do Design. A Béhen, de Joana Duarte, apresentou “Desta Água Não Beberei”, uma coleção que cruza o imaginário popular da Nazaré com a tradição dos banhos de mar que marcou o litoral português entre o fim do século XIX e o início do XX. Memória, saber-fazer e produção consciente em cada peça.
No mesmo dia, o projeto AD HOC, parceria entre a designer portuguesa Constança Entrudo e a artista francesa Marie Hazard, colocou em diálogo práticas têxteis dos dois países. O trabalho, mostrado antes em Nova Iorque, trouxe o material e a técnica de construção para o centro da linguagem da moda.
Sexta-feira, 9 de outubro: novos talentos e uma estreia internacional
O Pátio da Galé abriu com o concurso Sangue Novo e recebeu também a estreia da marca espanhola Adolfo Domínguez na Lisboa Fashion Week, conduzida por Tiziana Domínguez, filha do fundador. Ariana Orrico mostrou o trabalho desenvolvido na residência criativa da Burel Factory, e Francisca Nabinho também apresentou a sua coleção.
O dia terminou num cenário de tirar o fôlego: Luís Carvalho estreou-se no Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda, com “Wildflower”, coleção que dá continuidade ao seu universo de memória e nostalgia e mergulha numa infância quase enevoada, feita de imagens fragmentadas e emocionais.
Sábado, 10 de outubro: a moda desce à rua
O sábado começou na Havas Village com a apresentação performática da Portuguese Soul, projeto da APICCAPS dedicado à promoção internacional do calçado e da moda portuguesa. A campanha “Kindness” reuniu criações de marcas como Carlos Santos, Penha, Centenário, Mariano, Helena Mar e Miguel Vieira, e lembrou que uma semana de moda também se faz de sapatos, acessórios e de toda a cadeia industrial.
Depois veio um dos momentos mais marcantes da edição. Carlos Gil apresentou “Entre Mares” a partir do interior do MUDE, com o desfile projetado para a Rua Augusta, numa parceria entre a Lisboa Fashion Week e o museu. Com lugares abertos ao público, a principal rua pedonal da Baixa virou extensão da passarela, entre o Tejo e o Rossio. Uma coleção leve sobre a liberdade de atravessar fronteiras e transformar cada viagem em expressão pessoal.
À tarde, o Pátio da Galé recebeu Mestre Studio, ARNDES, Roselyn Silva, Gonçalo Peixoto, Kolovrat e Nuno Baltazar.
Domingo, 11 de outubro: do cabelo ao teatro
O último dia começou com uma estreia diferente: a hairstylist Helena Vaz Pereira, com o apoio da L’Oréal Professionnel, levou à passarela uma coleção em que o cabelo deixa de ser complemento e assume o papel principal. Seguiram-se Bárbara Atanásio, Çal Pfungst, DuarteHajime, Luís Onofre, Valentim Quaresma, a 2B e, para fechar, Dino Alves.
As coleções que ficaram conosco
Olhando para a semana como um todo, o que mais chama atenção é a convivência de linguagens muito diferentes.
Cor, sensualidade e brilho
- Roselyn Silva. Depois de uma fase mais focada no preto e branco, a designer voltou à cor com a coleção “Birsa”, de primavera-verão 2027, inspirada nas aves endêmicas de São Tomé e Príncipe, hoje ameaçadas de extinção. Estampas, bordados, golas largas, saias amplas e brilho, numa fusão entre referências africanas e streetwear. O desfile fechou com Bárbara Guimarães num look de inspiração nupcial.
- Gonçalo Peixoto. Transparências, renda floral, chiffon, paetês e vestidos com estrutura de corset, numa coleção centrada na feminilidade e pensada para ocasiões especiais. O ponto de partida foi uma fotografia da mãe do designer, um mergulho em memória e afeto. O desfile marcou ainda a estreia da Pandora na passarela de Lisboa.
Conceito, artesania e experimentação
- Kolovrat. Uma reflexão sobre cultura, comunicação e identidade, com referências africanas, animal print, franjas, capas e túnicas. Chamaram atenção os vestidos feitos de cordas e de retalhos de brocado, numa coleção que valoriza o trabalho manual e um jeito mais lento e intencional de criar.
- Valentim Quaresma. O designer de joias levou uma coleção de inspiração distópica, com acessórios que lembravam espinhos e máscaras, construídos a partir de sobras e materiais reaproveitados. Uma narrativa teatral que terminou com uma figura toda de branco, em contraste com o universo escuro do restante.
Elegância contida e referências urbanas
- Nuno Baltazar. “Cabinet des Curiosités” trouxe silhuetas alongadas, ombros e cinturas marcados e tecidos fluidos, numa paleta sóbria pontuada por bordô, roxo, amarelo-mostarda, metálicos e paisley. Elegância sem precisar de efeitos.
- DuarteHajime. “Highway Cruise” abriu com um casal chegando de moto e homenageou a cultura nômade dos motociclistas: couro, bombers, coletes e zíperes ao lado de vestidos de tule estampado e calças de seda.
O espetáculo e o fecho
- 2B. A marca de Bárbara Bandeira apostou na dimensão performática e no impacto visual, um dos momentos mais exuberantes da semana.
- Dino Alves. Coube a ele encerrar a edição com “Poema”, de primavera-verão 2027: cerca de 60 looks sobre a relação entre roupa, escrita, memória e emoção. Tule volumoso, silhuetas geométricas, tiras de tecido e upcycling, com música, encenação e pó branco espalhado pela passarela. Mais do que um desfile, uma experiência de teatro.
- Luís Onofre. O designer de calçado fez a sua apresentação e revelou que participou da colaboração Elie Saab x H&M, reforçando a presença do saber-fazer português nas grandes marcas internacionais.
O futuro começa no Sangue Novo
Se a edição falava de prioridades, a renovação de gerações estava claramente entre elas. O Sangue Novo, concurso do ModaLisboa dedicado a novos designers, apresentou dez nomes na primeira fase: Albert Porta, Alexandra Sousa, Catarina Pica, Elio, Francisco Martinho, Granatum, João Pecuro, Marta Amorim, Matheus Dauzaker e Ronni. Desses, cinco seguiram como finalistas: Elio, Francisco Martinho, Granatum, Marta Amorim e Ronni, que vão desenvolver uma nova coleção para apresentar em março de 2027.
O júri foi presidido por Miguel Flor e contou com Joana Jorge, Adriano Batista, Lidija Kolovrat, Umberto Sannino e Mafalda Fialho. E aqui está algo que nos parece essencial: o concurso não entrega apenas visibilidade. Há uma nova parceria com o IED – Istituto Europeo di Design, que vai oferecer dois cursos de verão em Florença com bolsas de 2.000 euros cada; a residência criativa ModaLisboa x Burel Factory, com bolsa de 1.000 euros; e apoio de empresas têxteis como Calvelex/Fabrics4Fashion, RDD Textiles e Riopele. É exatamente o que Eduarda Abbondanza defendeu: carreiras possíveis, não apenas holofote.
A plataforma Workstation Design completou esse olhar sobre quem está começando, com trabalhos de ARNDES, Bárbara Atanásio, Çal Pfungst, Francisca Nabinho e Mestre Studio, além da estreia de Ariana Orrico.
Para além dos desfiles
Quem acompanhou a semana fora das passarelas também teve muito para ver:
- “Prova dos Nove”, na Sociedade Nacional de Belas Artes, reuniu fotografias de nomes como Carlos Teixeira, Inês Gonçalves, Rui Aguiar e Rui Palma, fotógrafos que ajudaram a contar a história do ModaLisboa desde 1991.
- “Wearable Art – 3rd Skin”, no MUDE, juntou joalharia contemporânea, peças escultóricas e estruturas vestíveis que usam o corpo como suporte. Fica em cartaz até 25 de outubro, então ainda dá tempo de visitar.
- Fast Talks, também no MUDE, com uma conversa aberta sobre o impacto social da moda e dois workshops para profissionais sobre estratégia de marca e negócio.
- O livro “Fabricaal: Tempo para o Tempo”, que documenta, pelo olhar da fotógrafa Cátia Castel-Branco, a transformação de uma fábrica de lanifícios centenária em Reguengos de Monsaraz.
- A pop-up store no Moldo Studios, onde o público pôde conhecer e comprar peças de nomes como Constança Entrudo, Luís Carvalho, Nuno Baltazar, Ricardo Andrez, Roselyn Silva e Valentim Quaresma.
Saúde, família e o luxo que não se compra
Voltamos então à pergunta do começo. Por que, numa semana de moda, as pessoas responderam saúde e família?
Acho que porque entenderam o tema melhor do que qualquer slogan. Se o luxo verdadeiro é aquilo que é raro, que leva tempo, que não pode ser produzido em série, então saúde e família são o luxo mais absoluto que existe. Ninguém compra tempo com quem ama. Ninguém fabrica em série um corpo que funciona bem. São coisas que se constroem com escolhas, dia após dia.
E é aí que a moda volta a fazer todo o sentido. Uma coleção como a de Béhen, que resgata memória e saber-fazer, ou a de Kolovrat, feita de trabalho manual lento e intencional, ou ainda a de Gonçalo Peixoto, que nasceu de uma fotografia da mãe, falam exatamente da mesma coisa que o público nos disse: daquilo que importa e que queremos levar conosco.
A moda que fica é a que nasce de escolhas conscientes, de tempo e de cuidado. Assim como aquilo que mais importa na vida.
Escolher melhor também vale para o guarda-roupa: peças que acompanham a nossa vida, que nos deixam confortáveis para viver o que importa, que contam quem somos. Cuidar de si não é vaidade. É prioridade.
A Câmara de Lisboa escreveu que nem tudo aquilo que podemos fazer merece permanecer, e que uma verdadeira prioridade começa na capacidade de decidir o que queremos levar para o futuro. Saimos do ModaLisboa com essa frase na cabeça e com dezenas de respostas gravadas que diziam, de jeitos diferentes, a mesma coisa.
E você, já sabe qual é a sua prioridade?