Assistir a um desfile de Yolancris é, sem dúvida, sair de lá com a alma a sorrir. Não existe edição morna na marca das designers Yolanda Pérez e Cristina — todas superam expectativas e surpreendem pela forma como conseguem reunir tendência, sofisticação e acabamento impecável em uma única coleção.
Flores, rendas, transparência, fluidez: cada detalhe colocado com precisão, sempre a serviço de valorizar o corpo feminino. E a edição SS27, que fechou a Mercedes-Benz Fashion Week Madrid na Universidad Nebrija, não foi diferente.


Ophelia: quando a moda encontra Shakespeare
A coleção que encerrou o calendário principal da semana de moda madrilenha se chama Ophelia, uma referência direta à personagem de Hamlet, e traduz em tecido todo o universo romântico e melancólico da figura shakespeariana. O resultado foi um dos desfiles mais delicados da semana: uma proposta em que a costura artesanal assume total protagonismo e as flores aparecem em praticamente cada centímetro das peças, sobre organza, tafetá, ráfia e em aplicações tridimensionais.
Yolanda Pérez, diretora criativa da marca, explicou que a inspiração nasceu da beleza efêmera de um jardim em plena floração — a ideia de explorar a fronteira entre natureza e artesania, fazendo com que os motivos botânicos nascessem do próprio tecido, se sobrepusessem e ganhassem volume. As flores foram trabalhadas de formas variadas: em paetês multicoloridos, em ráfia, em aplicações 3D e bordadas diretamente sobre a seda organza — um trabalho tão minucioso que cada borda é arrematada à mão para não desfiar.

A paleta apostou no branco como fio condutor, com os plissados Fortuny dando estrutura a decotes e barras soltas, enquanto o tafetá trouxe um ar mais romântico e decadente às peças. O desfile — embalado pelo flamenco do grupo Las Migas — fechou com um casaco de tule inteiramente bordado, um verdadeiro ponto final de alta-costura para a semana.
O sonho de vestir Zoë Kravitz
Em entrevista após o desfile, Yolanda Pérez revelou qual celebridade adoraria ver usando uma criação da marca: a atriz Zoë Kravitz, cuja mistura de sofisticação e desprendimento a designer diz admirar profundamente. Não é a primeira vez que a Yolancris mira o red carpet internacional — a marca já vem consolidando presença fora da Espanha, especialmente no universo bridal e de festa, exatamente pela forma como equilibra artesania de alta-costura com uma sensualidade discreta e atual.
O que isso revela sobre 2027
Se um único desfile pudesse resumir para onde a moda está caminhando, a Ophelia seria um ótimo indício. A primavera/verão 2027 será marcada pela delicadeza — e alguns sinais já estão claros:
- Rendas continuam em cena, mas ganham camadas: sobrepostas a organzas, crepes e sedas lavadas, criando profundidade sem perder leveza.
- Florais deixam de ser estampa para se tornar construção da própria peça — bordados, aplicações e volumes que “nascem” do tecido.
- Transparência com propósito: organza e tule aparecem não para expor, mas para revelar camadas e texturas, num jogo entre fragilidade e estrutura.
- Fluidez e plissados seguem valorizando o movimento do corpo em vez de contê-lo — uma resposta direta ao excesso de estruturas rígidas de temporadas anteriores.
- Artesania como luxo: bordado à mão, acabamento impecável e tempo de atelier voltam a ser o verdadeiro diferencial de uma coleção, mais do que o logotipo.



O recado por trás da coleção
Mais do que fechar com chave de ouro a MBFW Madrid, a Yolancris reafirmou um caminho que a moda parece decidida a seguir em 2027: menos sobre tendência passageira, mais sobre feminilidade contemporânea, livre e poética — construída com tempo, técnica e sensibilidade. Para quem, como eu, acompanha de perto o trabalho da marca a cada edição, fica cada vez mais claro que a Yolancris não segue tendências. Ela ajuda a criá-las.
Cobertura realizada para a Fashion TV Brasil na Mercedes-Benz Fashion Week Madrid SS27.