“O Acarajé é uma das mais tradicionais especiarias populares no Brasil e carrega uma história cultural ainda pouco conhecida. Ele é vendido principalmente na Bahia, produzido majoritariamente por mulheres – mães e filhas de santo.
Preparado com um bolinho de feijão-fradinho artesanal, temperado com cebola e sal, frito em azeite de dendê e depois recheado com vatapá (leite de coco, castanha de caju, amendoim e camarão), vinagrete e camarão seco, o acarajé é servido “quente” ou “frio”, ou seja, com muita ou pouca pimenta.
De onde ele vem?
Difundida no candomblé e ofertada para a orixá Iansã, a receita chegou ao Brasil vinda do Golfo do Benim, na África Ocidental, por imigrantes africanos na época da escravidão.
A palavra acarajé se origina da língua africana iorubá: akará = bola de fogo e jé = comer, sendo assim, “comer bola de fogo”. O significado vem da história de Xangô com sua esposa Iansã.
Conforme a narrativa da Fundação Joaquim Nabuco, “Iansã, a deusa dos ventos e das tempestades, foi à casa de Ifá (oráculo africano) buscar um alimento para seu marido. Ifá o entregou recomendando que quando Xangô comesse fosse falar para o povo. Desconfiada, Iansã o provou antes de entregá-lo ao marido e nada aconteceu. Chegando em casa, entregou o preparado a Xangô, sem esquecer de repassar as informações do Ifá. Xangô o comeu e quando estava falando ao povo, começaram a sair labaredas de fogo da sua boca. Aflita, Iansã correu para ajudá-lo, começando também a ter labaredas de fogo saindo da sua boca. Diante disso, o povo começou a saudá-los de grandes reis de Oyó, ou seja, grandes reis do fogo”.
De acordo com outra versão da história, “um dia Iansã foi levada por Xangô às terras dos baribas. De lá ela traria uma porção mágica, cuja ingestão permitia cuspir fogo pela boca e nariz. Iansã, sempre curiosa, também usou a fórmula, e desde então possui o mesmo poder do marido”.
O acarajé é preparado com diferentes formas e tamanhos, de acordo com a oferenda. O maior e mais redondo é oferecido a Xangô e os menores para os obás (ministros de Xangô) e para os erês (intermediários entre a pessoa e seu orixá). Para Iansã, são oferecidos tradicionalmente nove acarajés, também pequenos – ela é considerada a deusa dos nove partos/filhos e a crença diz que o número está ligado às passagens desse orixá. Sendo assim, ofertando a ele essa quantidade de acarajés, é possível que se consiga maiores graças.
Em Ilê Ifê, na Nigéria, o acarajé representa os filhos gerados do orixá. O acarajé banhado no azeite de dendê é relacionado ao feto ainda em estado de formação, envolto em sangue.
A comercialização do acarajé começou no período da escravidão e foi se tornando uma fonte de renda para os terreiros, quando as ‘escravas de ganho’ passaram a vender o produto para outras pessoas. O acarajé era considerado um alimento bom para as crianças e idosos doentes ou com anemia, porque fortalecia e fazia melhorar. Seu consumo era restrito a negros, escravos e livres, moradores de rua e pessoas pobres. Esse tipo de alimento não fazia parte do cardápio das famílias com melhores condições econômicas.
Ofício das Baianas de Acarajé
As baianas são conhecidas principalmente pelas vestimentas: panos na cabeça, vestidos longos brancos, adereços e colares, que significam a que candomblé as baianas usuárias pertencem. O Ofício das Baianas de Acarajé foi reconhecido como Patrimônio Nacional e inscrito no Livro dos Saberes em 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O Ofício diz respeito a todo o ritual envolvido, desde o preparo do alimento para oferendas ou para comercialização, até a indumentária própria das baianas, que revela sua condição social e sua crença. 25 de novembro é o dia Nacional das Baianas de Acarajé.” fonte Fundação Cultural Palmares

Depois de saber toda a história do bolinho das baianas, fui ao restaurante Acarajé da Carol em Lisboa; é como se eu voltasse à Bahia, aliás é como se eu fosse à Bahia porque lá nunca pisei, mas o sabor baiano todos conhecem bem – desde as pimentas mais quentes até o dendê.
Obrigada Ifá pela especiaria tão rica em sabores, comi à preco de ouro, ou melhor em euro e em euro bem cotado, mas o sabor é indescritível. Ah! Se as baianas do engenho soubessem o sucesso que o tal do acarajé iria fazer…..
A crocância é irresistível. O caruru estava tímido, mas num contexto geral ele nos transporta ao Brasil, à África, ao passado, à história e, principalmente; às noites quentes de acarajé e cerveja à beira mar e às fitinhas de nosso senhor do Bonfim.
Atrás de um acarajé tem muita historia, tem muita recordação, tem muitos significados que sequer sabemos, então a gente saboreia parte do nosso passado cultural degustando uma especiaria. Não é maravilhoso?

Oxe! ou Oxente!
Ago meu pai, mas eu quase cai tentação de degustar mais de um. Pura gulaa! Pura vontade de ser transportada às escadarias da Lapa ou ao Farol da barra.
A comida baiana tem seu tempero, tem seu gosto arretado, tem seus segredos e suas tradições.

Feliz de quem provar!
Para àqueles que amam um acarajé podemos sempre repetir o dito popular “é de comer rezando”
O sabor da Bahia em Lisboa
🦐 Rua da Rosa, 63
🦐 Rua de Santa Marta, 78
🗓 Reservas: 21 35 709 46
www.restauranteacarajedacarol.com